• Jordana Barbosa

A academia é feiticeira!


Pesquisando tradição oral africana ou afro-diaspórica no Brasil percorri alguns caminhos e encontrei pessoas que abriram um leque de possibilidades para entender o que é e qual o papel da universidade na sociedade. Nessa busca me deparei com um evento promovido por um coletivo da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e nos dias 23 e 24 de novembro de 2017 aconteceu em Salvador, Bahia o II Seminário Griô. Meu intuito era assistir e participar do evento com a apresentação de um texto em um grupo de trabalho.

O II Seminário Griô foi promovido pelo Núcleo de Pesquisa Griô em parceria com a Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia – UFBA. As mesas e apresentações do evento aconteceram no galpão e no gramado na Escola de Dança e os grupos de trabalho e oficinas no auditório e salas de aula da Faculdade de Educação. Quando cheguei à Escola de Dança havia uma mesa no gramado com sucos de frutas da região, café e quitandas. Uma senhora estava sentada em uma cadeira e umas 15 pessoas ao redor dela no chão. Ela uma mulher pequena, aparentava ter por volta dos 70 anos, mas era apenas os cabelos, quase todo branco, penteados em um blackpower pequeno. Fui me servir do café da manhã e parei ao lado do grupo para ouvir e entender do que se tratava aquele aglomerado já que o início do evento estava marcado para dali 30 minutos.

A senhora falava que era uma vergonha a universidade estar suja, visto que estamos ligados a natureza, os orixás são e estão na natureza e não é possível que passemos por um copo jogado no chão e ninguém recolha. Em seguida, iniciou uma conversa dizendo que a universidade era lugar de quebrar com as tradições ruins, de encher de gente preta, de fazer pesquisas que poderiam mudar a vida das comunidades oprimidas. Todos ouviam com muita atenção, mas eu não sabia ainda quem era aquela mulher. Depois de falar por quase 30 minutos ela disse: “Agora vocês me dão licença que eu vou tomar um suco e a gente se encontra lá dentro”. Ela se levantou, se serviu.

As pessoas que estavam sentadas começaram a se dispersar, mas pelo menos dois jovens continuaram seguindo a idosa que vestia um vestido feito de capulana. Um dos organizadores do evento parou no meio do gramado e pediu a atenção de todos. Sugeriu que déssemos as mãos e fizéssemos um círculo fechado. Taquari Pataxó[1] puxou um toré[2] e ensinou uma parte da música. Todos cantaram, dançaram e quando acabou fomos convidados a entrar no galpão.

De acordo com Barzano (2008) a roda é um dos símbolos da retirada de hierarquias, um espaço em que todos podem se olhar nos olhos. A Pedagogia Griô[3] acredita que com a utilização da roda em sala de aula o aprendizado é transformado e os alunos podem interagir de forma mais acessível com os professores. Porém, ao mesmo tempo que a roda retira uma pessoa do centro das atenções, ela constrói parcialmente o panóptico (FOUCAUT, 1987) e nesse momento, todos vigiam e todos são vigiados.

Dentro do galpão, as cadeiras estavam dispostas em círculo, eram poucas cadeiras. No centro, quatro mulheres negras vestidas com saias de chita e blusas pequenas estavam paradas, cada uma virada para um canto do galpão. Dá início a performance, a mulher mais velha e que ocupava o centro da performance era branca e posteriormente se apresentou como professora da UFBA. O pequeno espetáculo falava sobre violência doméstica contra as mulheres, elas dançavam, cantavam, usaram objetos como bacia, garrafa de vidro e esparramaram terra por todo o perímetro da performance.

Com o fim do espetáculo, uma professora da rede estadual de educação foi chamada ao centro do círculo, ela se apresentou dizendo que desenvolvia um trabalho com o Bumba meu Boi, de Itapuã, um bairro antigo de Salvador. Uma criança de aproximadamente 13 anos se posicionou no miolo[4] do boi e dançou por alguns minutos. Ao fim da apresentação, várias anciãs foram chamadas para compor a mesa da manhã. Apenas dois homens faziam parte da mesa-roda de conversa. Taquari Pataxó, doutorando da UFBA e indígena da etnia pataxó e Carlos Bonfim, branco e professor da UFBA. As outras integrantes, todas negras, eram Maria do Xindó, representante da associação das mulheres de ganho; Makota Valdina, uma personalidade ilustre do candomblé e do movimento negro baiano e era a senhora que estava cercada por pessoas antes do evento; Mestra Doci, uma educadora popular da Chapada Diamantina.

O mediador pergunta quem deseja começar e as mulheres prontamente dizem que as mais velhas começam. Maria do Xindó é a primeira a falar, fala baixinho, parece ser uma mulher tímida, fala pouco também e Makota Valdina a interrompe fazendo perguntas com a intenção de incentivá-la a falar mais. Maria do Xindó conta a história dela, a história do bairro em que nasceu e vive até hoje. Fala sobre Deus, sobre a educação das crianças e como falta amor e respeito na educação dentro de casa e nas escolas. Ela explica que as mulheres de ganho são as mães ajudando os pais a sustentarem as famílias. “Ganhadeira é uma mulher de ganho, toda mulher que trabalha é uma ganhadeira”. Ela encerra cantando e Makota Valdina dança samba de roda. As duas parecem que se conhecem de longa data pelo entrosamento desenrolado pelas duas em um ambiente supostamente formal.

Makota Valdina, sem cerimonias, iniciou logo em seguida sua fala. Ela diz que foi do movimento negro na década de 1970, se alfabetizou escrevendo na pedra. “Nunca me vi nos livros da minha infância e adolescência. A década de 1970 foi marcante para os descendentes africanos aqui no Brasil, a gente decidiu que iam nos ver como pessoas”. Foi professora primária. “O que eu era, era pesquisado e estudado pela academia. Eu não seria objeto de pesquisa, eu seria sujeito da minha história, sujeito da minha fala”. Ela prossegue falando como as religiões nos ensinam a embranquecer e afirma que Deus é um só, ele é de todas as religiões. Fala das hierarquias dentro dos diferentes tipos de candomblé como o jeje, o angola, o keto.

Para ela é fácil explicar coisas relacionadas ao candomblé já que está a décadas na religião. “Eu decidi ser militante, hoje em dia é chamado de ativista”. Acredito que por ser uma fala livre ou porque os convidados não são acadêmicos e não escrevem suas palestras, não apenas Makota Valdina, mas todas as pessoas passeavam por vários assuntos em pouco tempo. Em seguida ela disse: “Cultura é cultura. É preciso mudar isso de cultura popular e erudita, o erudito está ligado ao europeu e é colocado como superior, mas não é nada disso, precisamos falar em culturas europeias, brasileiras, africanas”. Essa afirmação da anciã vai de encontro com teorias tradicionais da academia como da escola de Frankfurt, o que me parece um avanço, no ponto de vista teórico e metodológico de pensar o estudo da cultura.

A Escola de Frankfurt é uma escola de estudo culturais e sociais alemã que separa o que é conhecimento e cultura e essas pertencem a elite e o que é cultura popular e esta é simples, rasa, passível de manipular as pessoas e padronizada, pautada no capitalismo e, portanto, no acúmulo de capital. Quando Makota Valdina confronta a ideia de cultura popular, ela não precisa conhecer teorias clássicas sobre arte e cultura, mas ela denuncia a elitização das manifestações culturais de um grupo de pessoas em detrimento do desprezo por outras manifestações.

Makota Vadina continua: “Eu sei o que significa o nome do meu orixá, o meu nome no candomblé, eu sei o que significa Makota[5], mas não sei o que significa Valdina”. Seguindo a linha de raciocínio ela afirma: “A academia é feiticeira! Estuda a gente, escreve um monte de coisas com nomes diferentes, a gente lê e não entende nada, para mim isso é feitiço. O remédio que eu não entendo a bula também é feitiço para mim”. Makota Valdina torce a lógica do obscurantismo das religiões afro com essa afirmação. Ela traz um novo ângulo para podermos pensar o que é feitiço, o que é obscuro, o que é acessível. Ela encerra a fala dizendo que a ancestralidade da Arte Negra está na natureza e é lá que está o orixá e que não existe uma separação do homem, da natureza, da espiritualidade. O que Makota afirma é que nós somos parte deste espaço, não dominamos ele, mas vivemos em relação de total dependência.

Toda essa descrição é um caminho para chegarmos a este ponto, o questionamento da universidade. Sabemos que existe um modelo de como fazer ciência, de como ser cientista, como ser culto e assim por diante. Mas questionamos pouco como estando em lugares “marginais” seguimos a fórmula europeia e colonizadora. Júlia da Silva, é doutoranda em Antropologia Social na Universidade Estadual de Campinas, havia terminado uma apresentação sobre sua pesquisa – tradição e modernidade no reino de Bailungo - quando uma professora branca, aparentemente irritada ao ouvir Júlia descrever como foi recebida em Angola por ser negra, pergunta se ela consegue fazer antropologia estando na margem da ciência por ser uma mulher negra e pesquisar o “3º mundo”. Como resposta Júlia disse: “Eu não me coloquei na margem, me arrastaram pra ela, mas já que estou aqui, a margem é minha e eu faço o que quiser dela”.

O que venho propor é um rompimento radical com o modelo branco anglo-saxão de fazer ciência. Não existe uma entidade abstrata chamada academia, esse lugar é construído por nós, pessoas das ciências, todos os dias. O que nos impede de fazer aulas na rua, na savana, na floresta, no cerrado? O que nos impede de fazer texto apenas com autores negros? O que nos impede de criar métodos de pesquisas que não categorizem e separem o nós do eles?

Quando Makota Valdina acusa a academia de ser feiticeira ela acusa o exercício acadêmico científico. Grada Kilomba (2019) afirma que academia não é um espaço neutro e não só um espaço de conhecimento e erudição. Este também é um espaço de violência, um espaço de colonização, onde pessoas negras, indígenas e outros grupos sociais vulneráveis têm sido brutalizados, estereotipados, classificados, desumanizados e primitivizados. Então por que ainda não rompemos com esse tipo de ciência sendo nós mesmos os violentados?

Sempre produzimos conhecimento, seja oral, escrito, cantado, performado. A academia sendo um espaço branco que deixa exposta as hierarquias de poder, diz e determina o que é conhecimento, quem está habilitado a falar e quem será realmente ouvido. No Brasil, as universidades começam a serem abaladas como esse espaço branco de poder depois da cotas étnico-raciais. A entrada de estudantes negros e indígenas na academia traz novas questões, autores que antes eram desconhecidos pela dita elite cientifica, criam metodologias, porém ainda não é o suficiente. Mas os seus corpos ainda são vistos como fora do lugar, como intrusos.

“Que ótima maneira de colonizar, isto é, ensinar colonizadas/os a falar e escrever a partir da perspectiva do colonizador.” (KILOMBA, 2019, p. 65). É preciso analisar cada processo de colonização de cada país e a partir da análise criar ciências que sejam adequadas a cada realidade. Trazer os conhecimentos ancestrais pra academia, ouvir os grupos sociais vulneráveis, quebrar com os projetos de poder que criam elites e plebes intelectuais. Mas essa não é uma discussão nova e nem uma proposta inédita, eu me arriscaria em dizer que é uma proposta ancestral.

Autores como Abdias Nascimento, Davi Kopenawa, Frantz Fanon, W. E. B. Dubois, Marcus Garvey, Kwame Nkrumah, Léopold Sédar Senghor, Cheikh Anta Diop são apenas alguns dos autores que podemos encontrar que criaram ou defenderam, cada um a seu modo uma nova forma de fazer ciência e de estar no mundo. Mas todos vislumbravam a libertação de seu povo, seja africano, afro-diaspórico, indígena.

Se estamos na margem podemos fazer o que quisermos com ela. bell hooks[6] (2017) vai além e diz que a margem é um lugar de resistência e neste lugar é preciso criar novos papéis fora da ordem colonial, ou seja, descolonizar nossas mentes, entrar na “luta” como sujeitos e não como objetos. No espaço crítico podemos fazer perguntas que não poderiam ser feitas antes, perguntas que desafiam a autoridade colonial do centro e os discursos hegemônicos dentro dele. Assim a margem é o espaço de resistência, de transformação e de imaginar mundos alternativos e de criação de novos discursos.

Bibliografia

BARZANO, Marco Antônio Leandro. Grãos de Luz e Griô: dobras e avessos de uma ONG - Pedagogia - Ponto de Cultura. Campinas: 2008. Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1987.

hooks, bell. Ensinando a transgredir – A educação como prática de liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó,2019.

[1] Indígena da etnia Pataxó, da aldeia de Coroa Vermelha, Santa Cruz Cabrália, estudante de doutorado em Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia, além de militante ativo das questões indígena. [2] Toré é um ritual que une canto e dança, religião, luta e brincadeira. Pode variar de acordo com a cultura de cada etnia indígena. [3] A Pedagogia Griô é uma pedagogia facilitadora de rituais de vínculo e aprendizagem entre as idades, entre a escola e a comunidade, entre grupos étnico-raciais e de gênero, territórios de identidade, saberes ancestrais de tradição oral e as ciências, artes e tecnologias universais, por meio de uma fusão de várias outras pedagogias. [4] Bumba meu boi ou boi-bumbá é uma festa do folclore brasileiro, com personagens humanos e animais fantásticos, que gira em torno de uma lenda sobre a morte e ressurreição de um boi. A festa tem ligações com diversas tradições, africanas, indígenas e europeias, inclusive com festas religiosas católicas, sendo associada fortemente ao período de festas juninas. O boi é a principal figura, consiste numa armação de madeira em forma de touro, coberta de veludo bordado. Prende-se, à armação, uma saia de tecido colorido. A pessoa que fica dentro e conduz o boi é chamado miolo do boi. [5] Makota é um cargo de sacerdócio dentro do candomblé, o nome pode variar de acordo com a nação do candomblé. É a zeladora dos orixás. [6] bell hooks é o pseudônimo de Gloria Jean Watkins. O nome "bell hooks" foi inspirado na sua bisavó materna, Bell Blair Hooks. A escolha da letra minúscula é justificada pelo interesse da autora em dar mais enfoque ao conteúdo desenvolvido em suas obras e menos a sua pessoa.


* Esse texto faz parte do jornal Meditações Sociais e Filosoficas nº 4 da Universidade Pedagógica de Maputo


Meditações_Sociais_e_Filosoficas_nº4
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Sobre mim:

Jordana Barbosa é uma jornalista que odeia jornais, uma antropóloga por formação e de coração. Uma jovem senhora canceriana, adora rios e odeia café. 

 

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